Sim. Nós somos um grupo internacional e fino. Direto de Lyon, um texto lindo do Vinicius:
Assim que Nestor e eu chegamos em Lyon, vimos que acontecia uma bienal de dança na cidade. E qual foi nossa excitação ao ver num dos cartazes o anúncio do espetáculo “Nelken” dirigido por Pina Bausch! Logo corremos para a bilheteria da bienal com a esperança de conseguirmos ingressos para o espetáculo que aconteceria dentro de poucos dias. Nada; só uma lista de espera na qual inscrevemos nossos nomes, desesperançosos. Uma semana antes da primeira apresentação, recebi com prematura alegria o telefonema de uma das atendentes da bilheteria da bienal; havia somente um lugar disponível a ser comprado exatamente naquele momento de ligação. Mas eu queria dois ingressos! “Je suis désolée, monsieur.” Desolé estava eu, que não ia no espetáculo! Desisti; desliguei o telefone com um pálido merci, já metendo na minha cabeça que 45€ era caro demais.
E eis que o telefone toca dois dias antes da tal apresentação e soa a belíssima voz da atendente da bilheteria oferecendo 2 (DOIS) lindos ingressos. Quanto é mesmo? 45€, monsieur. Tem desconto para estudante? Somente para menores de 26 anos. E quanto fica com o desconto? 40€, monsieur. Tá lindo, a gente quer sim. Levando em conta que para ver um espetáculo do Tanztheater Wuppertal no Brasil eu teria de bancar passagens de Florianópolis ou para Porto Alegre ou para São Paulo, ainda achei vantajoso assisti-lo aqui; e se contar que a apresentação era na Opéra de Lyon, que fica a cinco minutos de caminhada da nossa casa, então…
O que dizer desse espetáculo? Ainda não sei ao certo. Sempre que via suas fotos e trechos na internet, ficava com uma expressão contemplativa, com se estivesse sentado à beira-mar vendo o pôr-do-sol, pensando na vida… Lembro que fiquei muito feliz ao entrar na plateia e ver de perto aquele campo florido. Eu senti aquele entusiasmo de criança, quando vê uma flor colorida ou uma borboleta voando. O espetáculo é tudo aquilo das fotos e dos vídeos, e mais…
E então começa: homens e mulheres bem-vestidos entram cada qual com uma cadeira, pisando com todo o cuidado para não amassar as flores, que ao final não passaram de um campo florido destruído. Para mim, o espetáculo fala sobre carinho, ou mesmo da falta dele, de cuidar de alguém ainda que para isso se tenha que castigar, como na relação entre adultos e crianças. Há também o prazer de ser criança, de brincar, e o prazer de estar em cena, de jogar; e o contrário, a disciplina, o rigor, os deveres, os anseios. Um espetáculo de metalinguagem que tenta responder algo pessoal mas comum a todos: por que eu sou dançarino? Por que montar tudo isso? Há uma cena em que são empilhadas várias caixas de papelão, que então são presas por fitas adesivas; e nisso Margareth fica berrando incessantemente para que não, não, não façam isso, parem! Mas os homens sobem em andaimes e se jogam lá de cima, caindo no colchão de caixas. Para quê? Sei lá, pelo prazer… Por que uma criança brinca? Por que atores e atrizes jogam? Porque precisam.
Lembrei agora do encontro que fizemos para brindar a abertura oficial e jurídica da dearaquecia. de experimentos artísticos, dentre vários assuntos, comentamos sobre nossas lembranças de criança de quando nos demos conta de que estávamos crescendo. Contei que quando eu tinha recém completado dez anos, uma vez um colega me perguntou o que eu achava de já ter pelos nas pernas, eu respondi sei lá, por quê? – isso quer dizer que tu já é’ pré-adolescente, daqui a pouco já tem até bigode! Eu fiquei em silêncio, eu gostava muito de ser criança e não queria crescer assim rápido, eu queria aproveitar minha infância. Desde então eu repudiei a palavra pré-adolescente, nunca me considerei um. E o curioso é que todos da dearaque tinham, de uma forma ou de outra, uma recordação meio traumática de se descobrirem crescendo. Ah, e a Maria disse: será que é por isso que escolhemos fazer teatro? Talvez sim, ou pelo menos esse prazer infantil de brincar tenha encontrado seu lugar. E o prazer do meu trabalho está nos meus amigos dearaques e na verdade que existe no nosso grupo.
Dois dias após assistirmos “Nelken”, fomos a uma pré-estreia do filme Les rêves dansants, sur les pas de Pina Bausch, um documentário feito sobre a montagem que Pina, juntamente com Jo-Ann Endicott e Bénédicte Billiet, fez do espetáculo Kontakthof com 40 adolescentes. (Pois é, estivemos bem Pina estes dias!) O filme é muito bom por nos mostrar além do processo de encenação, é possível acompanhar o crescimento expressivo dos recém-dançarinos. É interessante ver a formação de uma identidade num grupo de adolescentes tão diversos, e até mesmo se reconhecer nos bloqueios e fragilidades. A montagem original é de 1978, mas em 2000 foi feita uma montagem com idosos de 65 anos, e em 2008 esta dos adolescentes de 14. Segundo Dominique Mercy, que estava lá nesta exibição e conversou com os espectadores, esse projeto de remontagem partia da vontade da Pina de ver as respostas de distintas faixas etárias ao espetáculo, que fala de sedução, do amor e suas desilusões. Na minha opinião, o que faz o trabalho da Pina Bausch ser tão original é a verdade que existe nele, a forma tão próxima de tratar o amor em seus diversos planos, suas complicações de comunicação, a ternura, a tristeza. Para finalizar, uma senhora perguntou ao Dominique quando eles haviam se dado conta de que estavam revolucionando a dança com seu trabalho. E ele respondeu que na realidade tudo aconteceu sem essa pretensão, que nunca haviam pensado como objetivo “criar algo novo”, mas que faziam algo que lhes dava prazer em investigar, que eles achavam interessante. Taí, o prazer e a verdade.



