O teatro quer ser repensado, relançado, retomado. Não podemos nos satisfazer com a sua letargia, nem aceitar sua extinção. Cada qual pode inventar os meios desta recuperação, que são incontáveis. (…) Ora essa abertura se choca com dois preconceitos simétricos. O primeiro desqualifica o desejo de jogo em nome de sua aridez, pretensamente pré-teatral, ligada ao divertimento de massa, e que merece um pouquinho mais de consideração do que as partidas de cartas que as pessoas jogam em casa depois do jantar. A Arte é apenas pretexto: este desejo de jogo não participa da Arte, mas dos passatempos de salão. Modo de ignorar a força de uma pulsão para a teatralidade, lúdica ou séria, que, sem dúvida animou os supostos artistas em sua infância e adolescência, às vezes até mais tarde. Negação que permite também reinvidicar para si mesmo a virtude da profissionalidade recusando-a a outras pessoas. Não pretendo, evidentemente, recusar a profissionalidade. O teatro precisa muitíssimo dela, ela deve ser respeitada dentro das mais estritas exigências técnicas e artísticas. Mas a profissionalidade secreta, sua ideologia: que atribui uma essência ao “ser ator”, (ao ser encenador, cenógrafo, músico, figurinista, iluminador), o opõe ao não-ser-ator e permite dizer: eu sou profissional. Por conta disso, o ator que tem a sorte necessária para trabalhar o ano todo se acha (naquele ano) mais essencialmente ator do que aquele que trabalha de forma intermitente, que espera, vivendo do seguro-desemprego. O primeiro reinvindica intransigentemente sua profissionalidade, desdenhando do outro, semi-profissional, que emprega seu tempo de não-atuação trabalhando como garçom num bar. E também se sente mais ator do que aquele que se resignou a só viver o teatro em seus momentos de lazer. Assim, a profissionalidade acaba por designar o que se tem, ou se pretende ter, e que falta ao intruso que aspira a ter a mesma coisa; a profissionalidade subsume sob este ter ou ser que a pessoa conserva para si e que o outro não é (porque não o tem). Enquanto que a corrente evidentemente deve ser olhada no sentido inverso: a profissionalidade deve ser pensada como um processo, sempre em movimento, que por patamares sempre instáveis, conduz do desejo de teatro mais infantil aos degraus da profissão. Ou o contrário: é bem imprudente aquele que se acha profissional para a vida toda. É preciso repensar (refazer) o teatro articulando todas as suas formas, todas as suas fases: deixando que a vida teatral, por mais profissional que seja, se alimente de todos os impulsos de teatro, até os mais obscuros.
(Denis Guénoun em O teatro é necessário?)